Perdem-se do pensamento palavras soltas num desalinho sem nexo, os latidos descompassados da bomba-relogio que trazemos fechada no peito ecoam contra a sensatez do espirito em colisao, cada vez mais distante, cada vez menos presente. As palavras fluem incessantemente num ritmo inquebravel. Inevitavelmente, perco a nocao do espaco e do tempo, sou so' eu e o pensamento... A consciencia embate no universo de vacuidade que me rodeia.
Sinto falta do meu espaco, do meu mundo. As pessoas 'a minha volta falam, vivem, mas nao as ouco... suspiros calados de sonhos que ficaram incorporeos... Nao ouco mais do que a ramagem do meu pensamento que se agita de inquietacoes, as raizes crescentes do pensar cobrem tudo para onde olho.
E volto a flutuar sem rumo no espaco, no nada, no vazio que ha' em mim. Ironicamente, nao estou so'... Nada mais existe, nem solidao. Quando se pensa muito, nao ha' tempo para nos sentirmos sozinhos, estamos sempre em constante dialogo interior, sequenciando pensamentos, ideias, conversas, quase continuamente.
As pessoas tornam a aparecer... Olho para elas de novo, mas agora mais alem, para a essencia... para o espelho do seu lado genuino... intacto...
Mas a razao nao predomina sempre, mesmo quando em nos nao ha' espaco para mais do que pensar, quando desaprendemos tudo o resto e apenas somos capazes de ficar quase inanimados, imoveis, mesmo ai, o pensamento desenraiza-se da emotividade do ser, dos sentimentos, o insustentavel controle daquilo que nos e' inexplicavel, intrinseco... inato. Chamamos-lhe, 'as vezes, amor, outras, felicidade... saudade e desespero. Tudo o resto se desacorrenta, toda a nossa vida... o nosso bem-estar... a nossa consciencia e convivencia com os outros.
O pensamento e' um alicerce para nos ajudar a tomar um rumo quando o sentimento e' demasiado avassalador para o coracao poder responder por si. E' um coracao pensante, talvez mais realista, que nos ajuda a sarar mais facilmente o coracao afectivo. Somos frageis, vulneraveis... e facilmente perdemos o controle de nos mesmos e dos sentimentos sobre os demais. Quando sentimos em demasia, entramos em ruptura... difundimo-nos num universo de consternacoes... perdemos as redeas do equilibrio. Sentimos soltar as amarras da alma e afundamo-nos lentamente num mar de contrariedades e indignacao.
Hoje vou deixar-me levar... Perder-me num campo coberto de flores, sentir, correr, cantar, abracar, beijar, amar! Muito! Sempre...
Porque pensar em vez de sentir tira-nos o prazer do momento, a magnitude da felicidade, a efervescencia de viver. Fazem falta loucuras na vida, baboseiras, experiencias, sermos nos e apenas nos, com toda a nossa essencia.
Quando se pensa de mais, receia-se de mais, preocupamo-nos de mais, vivemos de menos. Passamos a ser um produto da sociedade. Nao somos tanto quanto queriamos e, inevitavelmente, acabamos nao sendo tanto quanto querem que sejamos. Deixamos de ser genuinos, autenticos, unicos, como todos supostamente seriamos. Agimos e somos premeditadamente, porque assim nos induzem.
Vou segurar o coracao com as redes do pensamento. Sentir e' tudo aquilo que nos transcende, e' vida, e' morte, e' viver intensamente, e' pensar emotivamente...